quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

... "Até o chão! chão..chão!"...


Estava rodeado de luzes confusas, música alta, e um clima que estigava ao libido. Isso mesmo. O proibido. Sentiu o desejo da carne a inflamar seu peito, suas pernas ficaram tremulas, suas mãos suaram, sentiu o colarinho apertar seu pescoço. Tudo girava a sua volta enquanto os corpos pulavam sincronizadamente. Tirou a bata. Sua cabeça girava. Sentiu o suor escorrer em sua testa.


Não estava acostumado com esses ambientes libidinosos, passou anos se dedicando ao celibato e as coisas de Deus. Não namorou. Estudou línguas, costumes de povos, possuia uma vida regrada. Não transava. Não fumava. Não bebia. Sem vícios. Foi educado para uma vida correta, alimentação balanceada. Era o sonho de sua mãe vê-lo na paróquia perto de sua casa. Há anos estudava para ser padre. Nunca esteve tão perto.


Tentou no início se desvencilhar da vida paroquial. Mas a influência de sua mãe era mais forte. Viu seus planos afundarem. Já não sentia mais o perfume de Isabela, Mariana, Caroline. Já não possuía o mesmo gosto e vigor de antigamente. Suas amigas não lembravam mais de seus beijos. Das tardes a fazer travessuras. Agora sua vida era voltada ao celibato. Sentiu vontade de gritar. Mas não tinha vontade própria, e não sabia o que era isso desde muito pequeno. Nuncam haviam deixado o menino tomar suas próprias decisões. Foi mimado. Sempre foi o mais querido, o preferido de mama. O primogênito.


Tentou ainda largar tudo para trás e compensar o tempo perdido. Recomeçar do zero. Fugiu. Passou dias longe da paróquia, porém o frio e a fome chegaram mais depressa. Era um período de fortes geadas, e não teve sorte pois não possuía amigos. Na verdade não conhecia ninguém na cidade. Havia ido somente para estudar. O cotidiano da vida na paróquia tomava todo seu tempo e as vezes passavam-se meses confinado em rezas e estudos. Sentia falta das meninas e do futebol de domingo. Ficou triste.


Acourdou de repente. Voltou para si após sentir sua cabeçar girar. Sabia que havia bebido demais, e que comemorações como essas já não faziam parte de sua vida há tempos, principalmente após ficar tanto tempo confinado. Procurou por ajuda. Não tinha ninguém. Estava sozinho. Gritou, mas não foi ouvido pela música alta no ambiente. Não aguentou o peso de seu corpo, e sentiu ser carregado pelos braços sendo jogado para fora da boate. Ficou ali mesmo durante horas. Nem sentiu quando pegaram sua carteira. Acordou no dia seguinte com ressaca. Não iria rezar naquele dia.

E há dias difícies....



Marcelino era um cara tranquilo, de bem com a vida, de humor bem dotado e com grande alma e coração. Era uma pessoa simples, andava como os outros, sem muito glamour, enfim, uma pessoa razoávelmente bem financeiramente. Gostava do básico, feijão com arroz, pão com manteiga, de um choppzinho nas sextas-feiras após o trabalho, aquela velha e gostosa roda de pagode que frequentava há anos.

Resolveu dar um rumo em sua vida, terminar a faculdade, já que era cobrado pela Sucursal de São Paulo para prosperar em sua carreira. Estava decidido! Iria se inscrever no mês seguinte e terminar aquele estudo que havia deixado anos para trás com aquelas velhas e antigas desculpas de alguém que se acomodou com o tempo.

Lápis, caneta, e aquela velha mochila Jeans da época do 2° grau. Sorriso no rosto, peito estufado, ar decidido, era assim que se via Marcelino ao sair do trabalho em direção a faculdade. Realmente era um cara determinado, pois era difícil ver alguém com quase 39 anos resolver terminar os estudos por uma oportunidade congelada há alguns anos. Era diferente, nunca havia presenciado isso, era novo, se sentiu importante. Esse era Marcelino. Sorriu.

Era um cara sensato, sabia das suas limitações, até mesmo pelo peso que carregava nas costas de bons 39 anos no almoxarifado. Se dedicava, não dava mole com os estudos, mas as coisas vinham piorando a cada dia na faculdade. Os rabiscos dos seus rascunhos já não possuíam tanta clareza, e aos poucos viu sua média cair. Não titubeava, tentava, estudava, mas ainda não era o suficiente para passar. Acreditou. Sentiu que daria para passar. Mas ficou para as provas finais no fim do ano. Dessa vez havia feito uma promessa com ele mesmo, que iria passar custe o que custar.

Infelizmente, justo no dia da sua prova final, Marcelino ficou no meio do caminho. Tentou correr, mas ouviu os disparos ao fundo. Havia reagido a um assalto, só tinha 10 reais na carteira e eram exatos de sua passagem de ida e volta, sentiu sua pele queimar 3 vezes. Caiu. Ainda conseguiu ter forças para olhar o relógio e ver que estava atrasado para a prova, mas não resistiu e morreu ali mesmo. Marcelino não compareceu a prova, e foi reprovado automaticamente pelo professor que esperou durante 20 minutos.

...uma homenagem a mim mesmo...

...e aos dias que nunca voltam!

Rafa, 18/12/08

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

E mais um dia se passou...

uma homenagem ao badunda...


Justiceiro implacável

Batistão. Assim mesmo no aumentativo, como se o pai adivinhasse que aquele bebezinho com cara de joelho fosse virar aquele brutamontes que era hoje. Hoje era sábado e sábado era o dia do futebol de manhã, com a turma lá da firma. Mas o que Batistão gostava mesmo era da cerveja que rolava depois do esporte bretão. Ficava lá bebendo até mais tarde quando pegava o carro de volta pra casa. Era na hora em que sabia que a mulher já devia estar terminando o almoço. Não precisaria ficar em casa esperando a comida ficar pronta. No máximo, o tempo de uma lata de cerveja que tomava na cozinha, apertando a bunda de Eulália. Eulália era a esposa, que não gostava muito quando Batistão chegava do futebol mais cedo. Ficava na cozinha beliscando a sua bunda e ela ficava incomodada, pois o filho estava ali por perto e ela não gostava dessas liberdades na frente do guri. Mas Batistão não estava nem aí para Eulália, nem para o filho que ficava dizendo para o pai que queria ir ao futebol. “Vê só!”, pensava Batistão, imaginando aquele pirralho correndo pela quadra, interrompendo o seu futebol, a sua cerveja e a sua conversa. Aquele sábado foi um dos tradicionais, em que Batistão ficou apertando a bunda da patroa de cara feita. Feijoada foi o prato do almoço. Com todos os pedaços do suíno que se convém a uma bela feijoada. Ainda estava chupando um pedaço do pé do porco, quando a TV anunciou o faroeste. “Beleza!”, ele pensou, enquanto dava um gole na cerveja para empurrar a carne goela abaixo. Largou o prato cheio de ossos na mesa, enquanto levantava e dava um belo arroto, para desespero de Eulália e alegria do garoto, que ficou rindo do pai. Sábado à tarde. Barriga cheia, cervejinha do lado e cowboyzão dos bons na TV. Esparramou-se na poltrona de courino vermelho e botou a cerveja na mesinha ao lado, enquanto Eulália arrumava a cozinha do almoço. O menino postou-se à sua frente pedindo um novo arroto, que fosse tão alto, que o Juvenal, o vizinho, pudesse escutar. “Ô, menino! Sai da frente, caralho!” Queria assistir o filme, era daquele dos bons, muito sangue e balas. O filho parou com os pedidos de arroto, mas continuava a brincar na sala e teimava em atrapalhar o seu programa. “Ô mulé, não tá vendo que o seu filho tá aqui me atrapalhando?”, gritou Batistão. “Aproveita e me traz mais uma cerveja!” . Eulália veio esbaforida com a cerveja na mão e levou o pivete, que saiu chorando com um bonequinho na mão. O homem pegou a cerveja, reclamou da temperatura, abriu e deu mais uma bela golada. O tiroteio corria frouxo na TV. Estranhou o olhar do bandido em direção à câmera. Deu até medo. Ficou cismado que ele estava o repreendendo pela atitude com o filho. E o vilão voltou a atirar contra os mocinhos. Porém, uma das balas foi destinada ao homem no sofá, que deixou a cerveja cair ao sentir o projétil perfurando o seu tórax. Enterraram Batistão como mais uma vítima de bala perdida. Na volta para casa, Eulália ficou pensando como sustentar o menino, que havia ficado em casa, cuidado pela avó materna. Sabe-se que o filho cresceu e virou bandido, para se vingar de alguém que não existia e que havia dado fim ao seu pai, aquele que nunca o levou ao futebol. 


Homenagem a badunda.blogger.com.br